Dizem que eu me aproprio das coisas que posso nomear, e que se eu não soubesse dizer
saudade, não saberia exatamente senti-la, apenas saberia que estava lá. Mas eu
sei o seu nome, e portanto tudo o mais que eu sei é que
você está lá.
Não é meu.
E o que é meu nem eu quero nomear, às vezes. Eu só quero sentir. Não quero na
minha memória, vagando feito um fantasma cheio de correntes que rasgam o chão. Olhares circunspectos temendo pelo futuro. Um sorriso de Forrest
Gump sem inventar mais histórias, sem mais poder. O que eu não quero é poder.
Espero você aparecer na televisão, mas nem tudo que vejo me dá vontade de falar. Ainda mais com essa boca machucada, tudo o que eu quero é me esconder. Mensagens cifradas num
alfabeto de público seleto e meu repertório está cheio das mesmas imagens. Às
vezes são só ossos, outras só carne, mas quando eles se juntam eu tento
explicar tridimensionalmente, com meu próprio corpo, é do único jeito que eu
sei. Inventar um mundo um degrau acima do térreo é corriqueiro e seguro. A teoria
da evolução me prova de vez em quando que a segurança é importante.
Eu vou de trovadora de banda de circo, com meu macaco mambebe tocando corneta vestido de
verde pois é a cor da esperança. Grandes buracos na minha cortina blackout e na minha blusa de lã deixam o vento entrar enquanto eu escrevo a maior frase do mundo, porque eu odiava pontos finais e sempre acabava me rendendo às reticências... mas não mais.
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