domingo, junho 10, 2018

Zona metropolitana

Dois corpos se chocaram. E dessa batida, lágrimas rolaram o bastante para que o assoalho da vida ficasse inundado. Sobre ele, lá estava eu, dando largos passos. Mas escorreguei no chão molhado e minha cabeça bateu forte contra a quina da mesinha onde os restos das nossas redomas se encontravam. Uma gota de sangue escorreu dos meus cabelos e caiu nas lágrimas se transformando numa água-viva vermelha e expansiva. Fiquei caída e inconsciente enquanto tudo se esvaia pelo ralo.

Talvez um mês depois, não sei ao certo, acordei pela primeira vez nos esgotos da cidade. Eu te mandei minhas histórias e você não perdeu tempo pensando em mandar respostas. Comecei a assoviar uma canção que mais tarde se tornaria um grande sucesso. O meu suor pingava multicolorido, enquanto minhas pupilas continuavam escorrendo desbotadas. Vaguei pelas galerias subterrâneas por dois dias.

De vez em quando eu ainda sinto uma descarga ser acionada na minha espinha. Meus dedos ficam azuis nas pontas e minha testa se torna apenas um emaranhado de rugas. Agora eu que ouço vozes que me soam familiares, mas eu já não penso em mandar nenhuma resposta. Olho em seus rostos, seus olhos estão virados para si próprios. Quando eles foram embora, reparei que em alguns começaram a surgir asas pelas costelas.

O que quero é me manter em zona neutra. Chicoteio e chapisco até voar.


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