segunda-feira, novembro 09, 2009

Se a história fosse curta não merecia frames

Eu quero ser confessional agora porque há 1 página era um ano atrás e este blog recomeça por aqui. É bom pensar na vida assim, de propósito.

Se tem uma coisa que talvez empaque minha entropia sem fim sou eu. E essa sensação de desperdício que eu sinto direto. Dizem que contar uma notícia, uma história, seja lá o que for, significa fazer escolhas. Porque a partir do momento em que resolvo focar um ângulo, outros lados vão se perder, nuances inteiras vão ser simplesmente deixadas de lado. Eu odeio isso. Eu queria viver tudo, eu queria ter tudo. No máximo, pé no acelerador, sem cinto de segurança, sorrindo, gritando... E se a metáfora puder significar alguma coisa, o que se retira dela é o fim inevitável: uma batida. Feia.

Então eu vou a festas domingo à noite, observo a segunda-feira na praça pública, de vez em quando escrevo, arranjo cursos complicados ou complico mais ainda casos mal-resolvidos, não entro quase nunca nas aulas da faculdade porque botei na minha cabeça que não preciso. Mas preciso e, lógico, me importo. Me importo e me preocupo por saber que tem um vacilo meu ali, que estou desperdiçando uma boa oportunidade de aprender coisas, de fazer uso de toda a minha competência... É que tem um negócio de heróico-decadente nisso que diz que eu não posso me deixar enquadrar, que eu tenho que fugir das normas. Que aproveitar a vida e só mandar bem nas burocracias não existe. São inconciliáveis formas de se ater ao chão.

Em certas situações isso fica tão ambíguo por causa da névoa que pintei na frente dos meus olhos que não enxergo senão um precipício a dois palmos do nariz, mesmo que ali esteja a possibilidade para um certo tipo de paraíso. Porque paraísos são efêmeros e eu só gostaria de um que fosse infinito.

segunda-feira, junho 29, 2009

Só-risos

Entre garrafas de vidro e fumaceira e pessoas falando que já estão indo embora há duas horas, Bernardo de repente soltou a bomba:

- Se ninguém me avisasse que existe essa tal coisa que se chama amor, talvez eu nunca tivesse me apaixonado na vida.

A menina mais romântica, fã de Bridget Jones, ex-leitora da Capricho, agora assídua da Marie Claire, logo levantou a voz entre os sorrisos dos outros.

- É claro que você se apaixonaria, sim, poderia até chamar de outro nome, mas o sentimento seria o mesmo.

- Sei lá, não acredito. Amor é psicossomático.

Mais sorrisos.

domingo, junho 07, 2009

Jukebox

Alguns lugares onde morri ainda guardam marcas de sangue na parede ou tem o cheiro forte retido nos tecidos de uma cortina. Olhares perplexos de balconistas que ainda não mudaram de emprego guardam a lembrança nítida de me verem morrer. Chega ao ponto de que mitos são construídos em casas noturnas e associações de bairro a partir do dia em que morri por lá. Já outros lugares onde morri foram transformados em shopping centers, estão abandonados e ficarão assim por mais 20 anos, foram pintados para abrigar um comitê político ou, simplesmente, querem esquecer que morri ali para viverem naquela casa em paz.

Nem sempre fui de reparar que morri. Às vezes só me dei conta quando já estava sem ar e presa dentro de um caixão barato. Já outras vezes, sabia que ia morrer com antecedência, e tinha certo prazer em tomar quase um papel de espectador na minha própria morte. Quando eram os outros a me verem prestes a morrer ou exatamente morrendo, alguns se maravilhavam pela minha coragem, alguns se perguntavam como eu suportava a angústia, alguns me chamavam de covarde.

Morria dia sim dia não, ou todos os dias de um final de semana. Após me acostumar, morria já ao ver a primeira célula necrosando. Morria, morria, morria. Como a cobra troca de escama, como o pulmão troca de ar. Por minha parte no mundo, morria sempre que ficava sem sentido morrer, pois isto era lei: não morria porque estava sem dinheiro, não morria porque tinha câncer ou tinha ficado impotente ou tinha sido deixada pela namorado ou tinha perdido o emprego. Morria quando sentia haver motivos para não morrer.

E depois de morrer, caminhava na escuridão de volta para casa, onde via nascer um novo dia.

sábado, abril 25, 2009

Solitude

Um dia você acorda e vê que está sozinha. Mesmo esse garoto deitado ao seu lado não consegue saber o que se passa pela sua cabeça. Mesmo um amigo de confissões tortuosas em tardes de bar tem que fazer um esforço para te entender. E você racionaliza. Só que rápido você não sabe oralizar ou verbalizar o que te impacienta silenciosamente - você não consegue nem ao menos fazer disso algo concreto. Mas isso está lá, só você sente isso e se sente bem consigo mesma.

Eu nem sei nada sobre ele. Mas ele é definitivamente normal. Às vezes me irrita, porque eu deito no colo dele e fico calada, pensando que tudo o que ele tem a me oferecer é o colo. E ele definitivamente me deixa normal. Como se eu não devesse ousar algum tipo de transcendência ou transbordasse umas gotas a mais de melancolia. Eu tenho problemas em ser uma pessoa andando no meio da multidão; me sinto mais tranqüila olhando a multidão enquanto ando. O que me leva a um sofisma, senão me engano, de que ele me irrita porque teoricamente ele me faz bem. Porque aí eu não posso culpá-lo.

Eu nem sei nada sobre mim. Eu sou um ser impermeável. Nada me atinge, eu não acerto nada. Nada sai de mim e nada consegue se infiltrar. Ou tudo ao contrário. São tantas coisas. E eu não consigo me segurar no chão. Eu tenho que subir e me desligar como um sistema cansado, como um gerador elétrico explodindo discretamente.

Pois é, eu sinto muito, mas no momento eu não sei sentir porque no momento eu sinto demais.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Resumindo, não sabe jogar futebol

Na sexta série, a professora de português pediu para que todos os alunos escrevessem uma descrição de um amigo da sala. Guilherme, insatisfeito em falar sobre apenas um de seus amigos, ignorou o que a professora tinha dito e resolveu descrever seu grupo de amigos, os quais achava serem muito leais, "amigos mesmo", ainda que tendessem a "brincadeiras sem graça". Quando entregou a redação, estava satisfeito.

No dia seguinte, cada aluno leria sua redação para a turma e ele só pensava em como a dele se diferenciaria das dos outros. No dia seguinte, a professora entrou na sala e a maioria dos alunos já sabia sobre quem cada um tinha escrito.

E começaram as leituras. Uma menina falava sobre sua melhor amiga, um garoto acabava entregando o romance do seu amigo com uma outra garota, até que Rafael foi à frente da sala. Guilherme estava lendo e relendo sua redação, não queria engasgar em nenhuma parte. Mas parou tudo quando ouviu Rafael dizendo que sua redação era sobre o Guilherme.

De novidade, Guilherme nada ouviu. Uma descrição realmente verdadeira, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. Ele concordava até com a assertiva final de seu amigo, a qual dizia "Resumindo, Guilherme não sabe jogar futebol". Mas ainda que a descrição de Rafael não tenha causado nenhum embaraço para Guilherme, ele ouviu aquilo tudo se sentindo um tanto quanto estranho. Sua atenção, que antes estava toda voltada para a redação que leria em seguida, desmembrou-se em um milhão de caquinhos que, naquele momento, Guilherme nem conseguia saber como começar a juntar novamente.

Então foi chamado pela professora, levantou-se e leu sua redação como se nenhum esforço tivesse sido usado em sua escrita. Sentou-se novamente no seu lugar e pediu para ler a redação de Rafael de novo. Aos poucos Guilherme entendeu o quanto tudo o fascinava naquela história. Pela primeira vez ele se descobria no olhar do outro. Pistas inconclusivas de como era estavam agora às claras para ele na letra feia e insegura de seu amigo. Aquela redação materializava sua pessoa.

"É... sou isso mesmo..." pensava Guilherme.

Nas semanas seguintes quase se vislumbrou mudando de atitude para condizer com sua descrição. Sendo daquele jeito, Guilherme sabia o que era. Se fizesse um golaço na próxima aula de educação física, poderia perder todos os seus amigos.