Eu estava pronta pra ser louca, mas ser louca saiu de moda. Guardei meus planos, mas não esqueci: seria louca quando novamente voltasse à moda.
E minha loucura estava mais longe que a Bulgária. Minha loucura estava mais difícil que um filme do Andy Warhol. Na verdade continua tudo bem normalzinho.
Fui normal de andar com as duas pernas, um passo depois do outro. Tropeçar às vezes, desatenta, derramar cerveja na mesa do bar para vergonha alegre dos meus companheiros de botecos de esquina. Freqüentei a faculdade, observando de longe aqueles loucos selvagens, feito cavalos indomáveis, se ainda existissem - tanto cavalos indomáveis quanto loucos na faculdade. Bem, aqueles loucos maltrapilhos que faziam o que podiam. Mas eu sabia não era aquilo.
Era loucura outra, irrepresentativa, não estava no olhar, e sim, nas beiradas da existência. Se enganou portanto quem pensou que eu portaria uma loucura estilo fenômeno de mídia.
Enquanto não fui louca abracei novas pessoas sempre que pude, esqueci de me alimentar às vezes. Me entristeci com minha roomie pois eu sentia saudade da companheira que ainda morava em casa, apesar que foi só isso que fez a gente durar mais tempo juntas. Procurava loucos nos livros, procurava loucos nos filmes, procurei loucos em feiras dominicais entre as beringelas e alfaces. No fim, fiquei com um monte de polaroids, feito figurinhas de gente humana que os saudosos adoram guardar de motivo pra sorrir.
Às vezes acordei dizendo, "fiquei louca", mas no fim do dia só dizia "estou com bastante sono". Comecei intencionalmente a trabalhar, o que fugia à minha loucura, e eu fugia do trabalho e a loucura me fugia. Meu namorado me ligava, pois queria me encontrar, dizia ele.
E minha loucura estava mais longe que a Bulgária. Minha loucura estava mais difícil que um filme do Andy Warhol. Na verdade continua tudo bem normalzinho.
Não entendem o meu romantismo por eu ser de 4ª geração.