quarta-feira, novembro 04, 2015

Petralha

Empresários tradicionais parados nos sinais vermelhos sempre me lançam olhares indignados enquanto eu os ultrapasso com minha boa qualidade de vida sobre 2 rodas, incrementada pelo fato de eu não me abalar com as manchetes negativas dos jornais e de eu só carregar grandes mapas que não entregam nunca onde eu vou de verdade. 

Talvez eu até aproveite que estou com tempo e vá visitar familiares que não carregam meu sobrenome, mas que são sempre muito gentis e divertidos.

sexta-feira, setembro 04, 2015

Elipse

Você não me conhecia antes de eu te conhecer e é a distância que nos faz, cada vez mais, desconhecidos. Se eu fosse de gritar, daria os gritos mais altos. Mas não sou de gritar. E dizer qualquer coisa também não quero. Sei lá, não sei, mesmo tendo total certeza, nos mínimos detalhes, de absolutamente tudo. Erupções interiores que estavam esquecidas e que dormir começou a me fazer lembrar.

É sempre assim. Se despedir sem olhar pra trás uma hora acaba fazendo todo o cinismo se voltar contra nós. O que eu posso fazer com alguém que me fala poesia, mas que não tem mais lugar no meu poema em linha reta? Vamos sentar e conversar pra você me perguntar alguma coisa que não vai descer bem nem com cerveja nem com amor. 

Fazseguinte, desaparece da minhamesa. Fazseguinte, aparece na frente - dosmeusolhos.
Fazseguinte, faz qualquer coisa. Não, não faz nada.
Eu sei, nada não dá. Tá vendo? É por isso o meu silêncio.
Assim eu fico muda e não faço cara de chata.

- E então?

Olha, eu não disse nada porque se eu me arrependesse depois eu não poderia pedir pra você esquecer o que ouviu. Se eu pedisse, me arrependeria de pedir, e se eu me arrependesse eu já teria ido longe demais do que eu considero razoável fazer - mas eu sei que tentaria, de modo que se eu ficasse puta não seria com você, apesar de que você acabar achando que sim.

Tá entendendo? Entramos num mundo cubista sem Picasso nos pinceis, quadros guardados na memória e fotografias para lembrar. Toda vez que eu trago uma memória de volta pra perto, para a borda dos meus pensamentos, eu vejo nelas um lado diferente: há 40 dias eu já não via mais nada, mas há 4 anos eu só via coisas bonitas, época em que eu podia derreter no meio de quadrados com infinitos lados, quadrados que iam girando e voltando ao zero e de repente saltavam pro lado escuro da lua. Onde já estivemos, sorrindo de olhos fechados.

- O pior de tudo é não ter culpa. Não me sentir nenhum pouquinho culpada. E não conhecer ninguém que seja dono dela a não ser esse pinball velho que me dá os maiores prêmios e depois emperra a minha bolinha. Tilt, entende?

Tilt - e não sabemos qual vai ser a próxima jogada. Antes da derrota você disse que até aceitaria um W.O. O único medo mesmo era do empate, porque assim ninguém iria pra final. Até ficaria mais intrigante e autoaderente, mas no fim só restaria a autocorrosividade, que não se aguenta por muito tempo em um papel que não faz parte do seu filme.

---

De volta ao cubismo, atrás do holofote, mesmo um grande ator quando resolve se mexer sempre faz o que não devia. Sempre pisa em falso entre os quadrados. Mas aí que está. O teatro do absurdo está aberto 24 horas por dia, sem hora pra ensaios, então ele apenas improvisa algum novo número e inventa falas que se misturam com a cena que se abre diante de seus olhos.

Pode ser que seja um sucesso.

quarta-feira, setembro 02, 2015

Calor

Não se pode negar, ele carrega seu carisma como um karma. Todos aqueles semi-conhecidos com amores forçados em busca de retribuição automática às vezes lhe dão nos nervos. Ele não queria nada além de seus amigos verdadeiros e um enterro com poucas pessoas, apenas as que realmente importam e que guardam memórias concretas desprovidas de nostalgias exageradas. Mas ele não pode. A suavidade das ironias produziu um carimbo automático para a lembrança, e por onde quer que ele passe alguém se lembra dele e de um fato relacionado estranho, pitoresco ou mesmo normal, mas que grudou nos confins cerebrais do sujeito e resiste a ser apagado.

Agora ele entrou no ônibus de viagem depois de lanchar num bar sinistro de rodoviária. Vendendo bijuterias de cidade em cidade ele descobriu que sua terra natal e seus vizinhos são iguais às terras natais dos outros e às vizinhanças dos outros. Em todos os cantos havia algo de familiar e amarelo tropical. Onde quer que fosse, algo lhe mostrava que ainda não era aquele o lugar mais tranquilo para ficar, e que o melhor a fazer era continuar almoçando em lanchonetes de rodoviárias e dormindo em bancos reclináveis de ônibus decrépitos e sem ar-condicionado, sempre em busca do lugar onde ele se sentisse eternamente recém-saído do banho, aquele aroma gostoso, a temperatura fresca grudada na sensação de higiene. 

Calor. Faz muito calor. Um arrepio dentro de sua cabeça ecoou num engolir a seco, na contração das maçãs coradas de seu rosto. Havia em seu rosto uma espécie de desarmonia que inspirava nos outros empatia. Por mais que ele tentasse mudar essa expressão complacente, nenhum distúrbio a isolava. 

Podia-se inclusive conversar com ele por apenas uma hora, e quando você fosse se deitar é bem provável que se perguntasse se realmente já não o conhecia por uma vida inteira, tal a facilidade que ele tinha em se tornar familiar. 

Acredite em mim, mesmo para quem só quer um papel coadjuvante é difícil recusar uma oferta de aparições em um filme independente. E, de cidade em cidade, vendendo bijuterias para comer hambúrger em lanchonetes de rodoviárias, ele nunca poderá voltar se não quiser ser reconhecido. 

terça-feira, julho 07, 2015

Não se sabe de Jão Adeus

Ninguém nunca encontrou Jão Adeus. Quando perguntam sobre ele depois de algum evento social, o que vem sempre à cabeça das pessoas é que ele "não ficou até o final", uma vez que, depois que confirmava presença na entrada, não era mais visto.

Muitos disseram ter visto sua silhueta se esvair pela porta dos fundos de uma festa lotada, mas isso é só especulação. A verdade é que, após certo horário, ainda que fosse um sujeito interessante, ninguém mais estava prestando atenção nele.

Procurando por Jão Adeus, certa vez cheguei a um armazém onde ele trabalhara como vigia noturno. Sem arma nem colete de proteção; lá ele só era alguém para espantar arruaceiros se fosse preciso, porque naquele armazém não tinha coisa de valor alguma guardada. Inclusive na mesa do dono do galpão ainda estava exposto cartão de ponto de Jão Adeus. E, claro, só com horários de saída.

Jão Adeus é o tipo de cara que deixa pegadas. Não que ele tenha feito algo péssimo ou genial, mas simplesmente porque, onde quer que você pergunte sobre ele, sempre ouvirá o mesmo tipo de resposta: Ele já saiu. Ele não veio. Ele ficou por pouco tempo.

Mesmo se alguém perguntasse aos amigos mais próximos como era a voz de Jão Adeus, em um primeiro momento eles só se lembrariam de longos e reflexivos silêncios. E se alguém fosse ainda mais a fundo e perguntasse como era a feição de Jão Adeus, até suas ex-namoradas provavelmente só se recordariam de sorrisos cordiais que não indicavam necessariamente nada, nem felicidade, nem malícia, nem mal estar, nem prazer - nem tudo, nem nada.

Fico me perguntando quantos bolsos tem a mochila de Jão Adeus. Ou ele não precisa e não tem nenhum, ou tem vários. Porque ou ele não quer nada do mundo, ou quer o mundo inteiro para ele. Mesmo que seja por pouco tempo, só o suficiente para nos cumprimentar e deixar saudade.

quinta-feira, julho 02, 2015

500 dias com ela

- Você vai aprender a viver sem mim, eu sei que vai. Ah, e... Se eu esqueci alguma coisa minha por aqui, por favor, avise-me depois. 

Ela colocou a mochila nas costas e saiu antes que ele pudesse dizer uma ou duas palavras. Bateu a porta e sumiu. Nos olhos dele, milhares de lágrimas contidas ameaçavam saltar para fora a qualquer momento. Não, ela não sabia o que estava dizendo. Ela não imaginava que jamais ele aprenderia a viver novamente sozinho ou com outra garota qualquer. Era tudo tão completo, tão perfeito e tão feliz que, sem ela, nada restava. Nada. 

O problema é que ela sabia demais. Sabia sorrir, brigar, escrever, contar histórias, chorar baixinho e ouvir as melhores músicas. Além disso ela era linda, linda além da conta, uma mistura de elementos doces, ásperos, cítricos e delicadamente aromatizados. Ela sabia bater o pé, impor suas vontades, perder a compostura e ainda assim manter aquele olhar inexplicavelmente vertiginoso. Maldito olhar, maldito sorriso. Ele tinha caído em todas as armadilhas, sem exceção. Para ela, era apenas mais um - um número, um fim. 

Com a cabeça encostada na mesa, ele se lembrou que ainda se morre por amor, por mais que a postura contemporânea tente absorver e negar certos ditos poéticos. Ele decidiu, então, morrer um pedaço, necrosá-lo e extirpá-lo do próprio corpo, mesmo sabendo a quantidade de sangue que isto lhe custaria. Só assim poderia trilhar um novo caminho, ainda que com um enorme fosso gravado no peito. Essa parecia ser a única saída no meio de tanta maledicência: aprender a viver sem aquela carne, suportando apenas as marcas do ferimento. 

Um corte sem cicatriz, que vez ou outra inflamava. A cada inflamação, o fogo cortante partia ao meio suas vísceras. Mas ele sabia como sobreviver, apesar de ferido. Ferido e sem ela.

quinta-feira, junho 25, 2015

O diário de um viajante (parte 1)

Descobrir-se perdido enquanto se faz um caminho qualquer, após um instinto desconhecido ter anestesiado sua necessidade de refletir sobre seu próprio caminho, é como ficar preso entre as ferragens do automóvel que você dirigia a alta velocidade em uma grande estrada reta e vazia (sua endorfina desembocando feito cachoeira junto à enchente de adrenalina dos fluidos cerebrais) quando, então, um carro da Transportadora Consciência Ltda. surge no cruzamento e a colisão entre vocês é patética e brutal  (a euforia ganha gosto de sangue). Ouve-se um rangido, os olhos se fecham, sentem-se os primeiros sinais da imobilidade. Ou seja, quando você descobre que está perdido no meio de algo e que você nem ao menos se lembra do seu destino, é exatamente assim: como se você ficasse preso entre as ferragens.

Porque se você resolver se mexer para tentar descobrir onde está, você pode se machucar todo e ainda descobrir que não havia destino nenhum, ou que você já há muito passou por ele. Você pode descobrir que não foi embora e sim foi expulso, você pode descobrir que os seus objetivos não tem sentido algum para o mundo real, você pode ficar sabendo daquilo que preferia não lembrar e por aí vai.

Por outro lado, se você resolver ficar ali, preso entre as ferragens, pode ser que você não sinta a dor de forma tão rápida e lancinante quanto sentiria se resolvesse se mexer. Em compensação, os ferros retorcidos que entraram sua barriga, apesar de você não senti-los agora, eles enferrujarão ali dentro, depois. E ninguém vai poder te ajudar com isso. Ou seja, se você resolver ficar preso entre as ferragens, não conseguirá resolver em nada a situação, irá apenas colocá-la em slow motion. 

Se apresse, meu bem

Se apresse, meu bem, pois os dias estão fechando as portas bem nos nossos narizes. As semanas estão trancando a chave. Os anos estão passando o trinco, eu sei disso porque eu posso ouvir. Se apresse, meu bem, e talvez ainda haja tempo para concluirmos que não amamos um ao outro e que criamos uma mentira um pouco mais desonesta que as outras, já que as outras são ao menos humanamente possíveis.

É isso, talvez cheguemos à conclusão de que somos humanamente impossíveis, mas se apresse mesmo assim e quem sabe possamos tentar. Cada um ao seu modo, cada um no seu mundo. Ao invés de nos desgastarmos um no outro, ambos errados por tentarem ser aquilo que não são.

Nesses últimos tempos até resolvi mudar as coisas, fazer planilhas, dançar um tango. Estou fugindo da rota familiar que encontro em seus braços, terra natal onde me sinto estrangeira. Estou fugindo do conforto que me descansa uma metade e me corrói a outra.

Se apresse, meu bem, pois não seguro minha alegria por muito tempo e parte dela é feita do seu prazer também. Desprezo, você sabe, é um nirvana subestimado, mas por enquanto temos apenas o veneno e a bílis da frustração. Somos minúsculos e nossos nomes têm mais sílabas do que deveriam. Caminhamos por avenidas largas que nós mesmos construímos. Se ao menos déssemos as mãos e andássemos juntos pela avenida, nós não nos perderíamos nas ruas adjacentes.

Portanto, se apresse. Há um longo caminho a percorrer e ao que parece devemos lutar contra o fato de que nossos percursos desde o início apontaram para direções opostas. De um jeito ou de outro, ou nos dilaceramos ou aceitamos ser mais felizes.