quinta-feira, junho 25, 2015

O diário de um viajante (parte 1)

Descobrir-se perdido enquanto se faz um caminho qualquer, após um instinto desconhecido ter anestesiado sua necessidade de refletir sobre seu próprio caminho, é como ficar preso entre as ferragens do automóvel que você dirigia a alta velocidade em uma grande estrada reta e vazia (sua endorfina desembocando feito cachoeira junto à enchente de adrenalina dos fluidos cerebrais) quando, então, um carro da Transportadora Consciência Ltda. surge no cruzamento e a colisão entre vocês é patética e brutal  (a euforia ganha gosto de sangue). Ouve-se um rangido, os olhos se fecham, sentem-se os primeiros sinais da imobilidade. Ou seja, quando você descobre que está perdido no meio de algo e que você nem ao menos se lembra do seu destino, é exatamente assim: como se você ficasse preso entre as ferragens.

Porque se você resolver se mexer para tentar descobrir onde está, você pode se machucar todo e ainda descobrir que não havia destino nenhum, ou que você já há muito passou por ele. Você pode descobrir que não foi embora e sim foi expulso, você pode descobrir que os seus objetivos não tem sentido algum para o mundo real, você pode ficar sabendo daquilo que preferia não lembrar e por aí vai.

Por outro lado, se você resolver ficar ali, preso entre as ferragens, pode ser que você não sinta a dor de forma tão rápida e lancinante quanto sentiria se resolvesse se mexer. Em compensação, os ferros retorcidos que entraram sua barriga, apesar de você não senti-los agora, eles enferrujarão ali dentro, depois. E ninguém vai poder te ajudar com isso. Ou seja, se você resolver ficar preso entre as ferragens, não conseguirá resolver em nada a situação, irá apenas colocá-la em slow motion. 

Se apresse, meu bem

Se apresse, meu bem, pois os dias estão fechando as portas bem nos nossos narizes. As semanas estão trancando a chave. Os anos estão passando o trinco, eu sei disso porque eu posso ouvir. Se apresse, meu bem, e talvez ainda haja tempo para concluirmos que não amamos um ao outro e que criamos uma mentira um pouco mais desonesta que as outras, já que as outras são ao menos humanamente possíveis.

É isso, talvez cheguemos à conclusão de que somos humanamente impossíveis, mas se apresse mesmo assim e quem sabe possamos tentar. Cada um ao seu modo, cada um no seu mundo. Ao invés de nos desgastarmos um no outro, ambos errados por tentarem ser aquilo que não são.

Nesses últimos tempos até resolvi mudar as coisas, fazer planilhas, dançar um tango. Estou fugindo da rota familiar que encontro em seus braços, terra natal onde me sinto estrangeira. Estou fugindo do conforto que me descansa uma metade e me corrói a outra.

Se apresse, meu bem, pois não seguro minha alegria por muito tempo e parte dela é feita do seu prazer também. Desprezo, você sabe, é um nirvana subestimado, mas por enquanto temos apenas o veneno e a bílis da frustração. Somos minúsculos e nossos nomes têm mais sílabas do que deveriam. Caminhamos por avenidas largas que nós mesmos construímos. Se ao menos déssemos as mãos e andássemos juntos pela avenida, nós não nos perderíamos nas ruas adjacentes.

Portanto, se apresse. Há um longo caminho a percorrer e ao que parece devemos lutar contra o fato de que nossos percursos desde o início apontaram para direções opostas. De um jeito ou de outro, ou nos dilaceramos ou aceitamos ser mais felizes.