terça-feira, julho 07, 2015

Não se sabe de Jão Adeus

Ninguém nunca encontrou Jão Adeus. Quando perguntam sobre ele depois de algum evento social, o que vem sempre à cabeça das pessoas é que ele "não ficou até o final", uma vez que, depois que confirmava presença na entrada, não era mais visto.

Muitos disseram ter visto sua silhueta se esvair pela porta dos fundos de uma festa lotada, mas isso é só especulação. A verdade é que, após certo horário, ainda que fosse um sujeito interessante, ninguém mais estava prestando atenção nele.

Procurando por Jão Adeus, certa vez cheguei a um armazém onde ele trabalhara como vigia noturno. Sem arma nem colete de proteção; lá ele só era alguém para espantar arruaceiros se fosse preciso, porque naquele armazém não tinha coisa de valor alguma guardada. Inclusive na mesa do dono do galpão ainda estava exposto cartão de ponto de Jão Adeus. E, claro, só com horários de saída.

Jão Adeus é o tipo de cara que deixa pegadas. Não que ele tenha feito algo péssimo ou genial, mas simplesmente porque, onde quer que você pergunte sobre ele, sempre ouvirá o mesmo tipo de resposta: Ele já saiu. Ele não veio. Ele ficou por pouco tempo.

Mesmo se alguém perguntasse aos amigos mais próximos como era a voz de Jão Adeus, em um primeiro momento eles só se lembrariam de longos e reflexivos silêncios. E se alguém fosse ainda mais a fundo e perguntasse como era a feição de Jão Adeus, até suas ex-namoradas provavelmente só se recordariam de sorrisos cordiais que não indicavam necessariamente nada, nem felicidade, nem malícia, nem mal estar, nem prazer - nem tudo, nem nada.

Fico me perguntando quantos bolsos tem a mochila de Jão Adeus. Ou ele não precisa e não tem nenhum, ou tem vários. Porque ou ele não quer nada do mundo, ou quer o mundo inteiro para ele. Mesmo que seja por pouco tempo, só o suficiente para nos cumprimentar e deixar saudade.

quinta-feira, julho 02, 2015

500 dias com ela

- Você vai aprender a viver sem mim, eu sei que vai. Ah, e... Se eu esqueci alguma coisa minha por aqui, por favor, avise-me depois. 

Ela colocou a mochila nas costas e saiu antes que ele pudesse dizer uma ou duas palavras. Bateu a porta e sumiu. Nos olhos dele, milhares de lágrimas contidas ameaçavam saltar para fora a qualquer momento. Não, ela não sabia o que estava dizendo. Ela não imaginava que jamais ele aprenderia a viver novamente sozinho ou com outra garota qualquer. Era tudo tão completo, tão perfeito e tão feliz que, sem ela, nada restava. Nada. 

O problema é que ela sabia demais. Sabia sorrir, brigar, escrever, contar histórias, chorar baixinho e ouvir as melhores músicas. Além disso ela era linda, linda além da conta, uma mistura de elementos doces, ásperos, cítricos e delicadamente aromatizados. Ela sabia bater o pé, impor suas vontades, perder a compostura e ainda assim manter aquele olhar inexplicavelmente vertiginoso. Maldito olhar, maldito sorriso. Ele tinha caído em todas as armadilhas, sem exceção. Para ela, era apenas mais um - um número, um fim. 

Com a cabeça encostada na mesa, ele se lembrou que ainda se morre por amor, por mais que a postura contemporânea tente absorver e negar certos ditos poéticos. Ele decidiu, então, morrer um pedaço, necrosá-lo e extirpá-lo do próprio corpo, mesmo sabendo a quantidade de sangue que isto lhe custaria. Só assim poderia trilhar um novo caminho, ainda que com um enorme fosso gravado no peito. Essa parecia ser a única saída no meio de tanta maledicência: aprender a viver sem aquela carne, suportando apenas as marcas do ferimento. 

Um corte sem cicatriz, que vez ou outra inflamava. A cada inflamação, o fogo cortante partia ao meio suas vísceras. Mas ele sabia como sobreviver, apesar de ferido. Ferido e sem ela.